Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Domingo, Setembro 26, 2004
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:22 PM Comments:
A ESCALADA
"(...)Não me voltara ainda, e já me precipitava, precipitava-me e já estava dilacerado e varado
nos pontiagudos calhaus que sempre me tinham olhado tão aprazivelmente da água veloz."
A PONTE, Franz Kafka
Não restou alternativa, após o jogo de espadas. A grande parede de vidro liso, sem lugar para firmar os dedos. Já foram tantas tentativas inúteis, mas tenho apenas isso como meio. Apenas uma única vértebra intacta. O chão jaz vermelho de tantas quedas. Apenas uma invisível película transparente a ser escalada. As mãos, já imóveis, tentam se fixar como ventosas. Tantas vezes vi corpos maravilhosos caminhando, dançando, na parede e no teto quadrangular. Não posso ser diferente. Sei que esta é minha última chance. As nuvens não são tão distantes quanto parecem, penduradas por fios de nylon ao teto azul escuro. Os dedos dos pés, lacerados, buscam o primeiro meio metro além do chão. Os fragmentos doem tanto que não mais se sente nada. Os olhos transformados em espelho imóvel. Um botão vermelho, uma lamparina de sacristia. As mão presas, como ventosas, o corpo escorrendo em linha humana. A escalada é o único desejo verdadeiro dos mortais de carne e ossos. Todo o corpo paralítico lavado em si mesmo. Nunca vi outra criatura além de mim ou de meu cego duplo do outro lado. Não há mais atrito. O corpo desliza para cima e escorre sob a lei da gravidade. Apenas existe esta experiência, mesmo que silenciosa e sincrônica de carne se arrastando. Dois metros, além do chão de lágrimas petrificadas. Lágrimas e suor de felicidade inebriante. Acreditem no meu elo. Falo sozinho comigo, mesmo sem pensamento qualquer, mas sempre sou mais de um. Sou infinitos fragmentos latejando. Os ossos se debatem, vinte centímetros até chegar à maior marca. Desde o ovo, escalava a parede de vidro. Verdadeiramente, jamais saí da torre em forma de taque. Cultivo meu próprio segmento. A última impressão digital arrancada ao tocar a linha negra. Agora poderei escorrer mais uns segundos na parede brilhante e vazia. Não consigo mais mexer um músculo. Grudo-me às criaturas maravilhosas de minha cabeça sem fios. Deslizo. Deslizo pela última vez, gritando mudo. Agora, no entanto, a última vértebra se desfez em pó e chão me encontra e joga meus restos líquidos no espaço sem fim.
...
A parede?
A parede se rompe como tudo o que não existe. E as nuvens, presas por fios de nylon ao teto, se soltam e voam sem deixarem de ser pedra.
(L. F. Calaça | 18/09/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:17 PM Comments:
Sábado, Setembro 11, 2004
O GATO CINZA
Deitado na clarabóia
entre a noite, o céu e o silêncio.
Dorme de olhos abertos, quase azulado,
contemplando as frias imagens
do vento e dos faróis vermelhos passando.
As janelas envidraçadas
derretendo como líquido inerte.
Olhos em transe acinzentado
sorriem draconianos das leis físicas
e dos espasmos do universo.
Perambulo pelos sentidos da incerteza
acorrentado às nuvens e ao asfalto.
O coração cravejado de violetas murchas
e as estrelas suicidas de si mesmas.
Miados desfiados do novelo
e uma forca para os velhos pesadelos.
Dorme criança desdentada,
que as notícias se perderam nos degraus.
Imóvel canção arritmia
entre o horizonte e o pasmo tom.
(L. F. Calaça | 11/09/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:34 PM Comments:
AZUL
Quantas maneiras de se sentir só? Um relance na espelho vazio. Aquele cheiro de goiabas maduras...
Ontem, antes de chegar, tinha este princípio criado nos solavancos do transporte coletivo. A água levou tudo, bem como os olhos fechados, dormindo. Quantas maneiras, sem saber como existir assim. A incerteza como única certeza entre lapsos e silêncio. Somente fatos emaranhados de insignificados. Uma mera interpretação pessimista do eu?! Talvez as coisas fossem mais fáceis. Todas as maneiras neste pedaço de pensamento que se despede e se derrama, esquecido de si mesmo. Insônia e amnésia. O sempre tique-taquear do relógio. O ar entrando pelas narinas alérgicas, apesar da saúde perfeita. Escrever é, às vezes, tão desnecessário quanto... Pensei num diálogo interminável, sem pessoas. Apenas idéias e a ilusória universalidade das emoções. Haverá...?! Improvavelmente haverá sensações sentidas por todos. Poucos muitos se identificando com algo que deixa de ser próprio e torna-se massivicante. Odeio conceitos marxistas, mas torna-se inevitável, pois sou criação imperfeita destes tantos. Se eu me resumisse à caligrafia... Páginas infinitas, repletas de banalidades e ressentimentos. Sentindo sempre, novamente, as mesmas sensações repletas de insignificados. Queria ser menos depressivo, falar de coisas cotidianas com um humor sem graça, porém apaixonante por não ser forçosamente sem graça. Minhas palavras serão realmente minhas, ou de ninguém? Ou de tantos outros que crêem serem suas as palavras escritas no papel, com... Caligrafia morta.
Quantas maneiras de se sentir só! São tantas e nenhuma, como se um simples pensamento resumisse tudo. Um relance no espelho vazio. Aquele cheiro de goiabas maduras... O mesmo embaraço no ônibus. Se eu me perdesse na cidade... Se eu me encontrasse numa esquina, ouvindo... As folhas soltas no vento, onde tudo se perde e se esquece. Esqueci minhas primeiras palavras, mas ainda tento fingir a dor. Fingir a dor de ser só, sem ser. Mas haverá um, nenhum, ou milhares que se olham no espelho vazio. É tão triste ser triste sem razão, que quase choro. Acho que é a caligrafia morta no papel. Tinta azul, céu azul, vida... uma lança atravessando o aroma de silêncio.
(L. F. Calaça | 31/08/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:28 PM Comments: